Galvão Bueno: “FAÇO OLIMPIADAS 2016 SE A GLOBO QUISER”

Galvão bueno

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“Tive vontade de bater mais”

O narrador diz que Dunga se alimentou do revanchismo e que teve de se controlar para não desabafar nas transmissões
Rodrigo Cardoso e Yan Boechat, enviados especiais à África do Sul.

Na sua décima Copa, ele já anuncia que pensa em parar em 2014

Prestes a completar 60 anos e com dez Copas do Mundo no currículo, o narrador Galvão Bueno gosta de dizer que é um vendedor de emoções e que seu principal produto é o futebol, principalmente o jogado pela Seleção Brasileira. Nesta Copa do Mundo, no entanto, o maior narrador esportivo do País não conseguiu se emocionar com o time brasileiro. “Não senti nada, apenas a frustração de ver acontecer que eu imaginava o que aconteceria”, disse ele, no bar do luxuoso Hotel Southern Sun, em Johannesburgo, sua casa nos últimos 30 dias.
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“O Kaká foi infeliz quando disse que ninguém estava sofrendo tanto quanto o grupo.
E as crianças brasileiras que são apaixonadas pela Seleção?”

Durante todo o Mundial, Galvão manteve-se distante da guerra travada entre Dunga e a imprensa, em especial a Rede Globo. Fez poucos comentários sobre as atitudes do treinador brasileiro. Nesta entrevista à ISTOÉ, porém, preferiu deixar a imparcialidade de lado. Para ele, Dunga e Jorginho perderam-se – e levaram a Seleção com eles – ao decidir brigar contra tudo e contra todos. “Dunga se alimentou de uma coisa terrível, o revanchismo”, diz.
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“Fiquei enlouquecido em 94, com meus gritos de ‘É Tetra’.
Parecia um débil mental. É minha maior vergonha profissional”

Você se surpreendeu com as atitudes de Dunga na África do Sul?
Conheço o Dunga há 27 anos. Acho que ele começou muito bem, caminhou bem e se perdeu inteiramente. Ele se alimentou demais de uma coisa terrível na vida que se chama revanchismo. O alimento do dia a dia dele é a revanche. Ele se perdeu quando começou a brigar com todo mundo e se alimentar das brigas. Ele se perdeu junto com Jorginho e com o Américo Faria.

Como interpretou os xingamentos contra o Alex Escobar após o jogo contra a Costa do Marfim?
Aquilo é a perda definitiva de controle de uma pessoa que tem que ser controlada. Num determinado momento eles, no plural, se perderam. Eu sinceramente não esperava. O que mais lamento é que acho que isso passou para os jogadores. Como jogadores que vêm de três Copas do Mundo, que jogam nos maiores clubes da Europa, podem perder o controle como perderam com um gol de empate? Isso tem que vir de algum lugar. Quando você vê seu chefe perdendo o controle todo dia, isso influencia.

Quem mais sentiu no time?
Todos perderam um pouco a noção das coisas. Não gostei das declarações. O Gilberto disse que o time não se desequilibrou. Não precisava disso, o mundo inteiro viu o desequilíbrio. O Kaká, por quem eu tenho uma admiração imensa, foi infeliz quando disse que ninguém estava sofrendo tanto quanto o grupo. Grupo não é gente, pô! E as crianças brasileiras que são apaixonadas pela Seleção? E mesmo o Júlio César, o melhor goleiro do mundo pra mim, um cara fantástico, dizer que o mais triste era ver o Gilberto Silva chorar. Poxa, e os torcedores? Enfim, eles se perderam, teve um processo meio brutal ali, não podia dar certo. Tudo em exagero não dá certo.

Você se emocionou em algum momento nesta Copa do Mundo com a Seleção Brasileira?
Faço Copa desde 74 e narro seleção desde 90. Fiquei puto quando o Maradona passou por todo mundo e passou para o Caniggia em 90. Fiquei enlouquecido em 94, inclusive aqueles meus gritos de “É Tetra, É Tetra”, parecendo um débil mental, é minha maior vergonha profissional. Em 98, tive uma sensação de impotência total ao receber a escalação sem o Ronaldo ali e tomar aquele chocolate da França. Em 2002 tive uma alegria incontida ao ver o Brasil numa final inédita contra a Alemanha e sermos campeões com dois gols do Ronaldo. Mas nessa não deu para sentir nada. Senti foi uma frustração com o que eu imaginava que ia acontecer.

Em qual sentido esta Copa é diferente das outras que você narrou?
Ser no continente africano já é espetacular. O que eu via aqui nos anos 70 e 80… aí vejo a capacidade de organização, a qualidade dos estádios, a alegria do povo. Não me lembro de ter visto uma Copa com um povo tão alegre e orgulhoso como aqui. A vuvuzela me incomodou para cacete, mas vou fazer o quê? Incomodou a mim, incomodou o zagueiro, o goleiro, mas nunca passou pela nossa cabeça fazer duas transmissões como a tevê inglesa, uma com vuvuzela e outra sem.

E no campo?
Um ritmo alucinado, uma velocidade de jogo que o Brasil não teve capacidade de acompanhar. Mais taticamente do que fisicamente. Acho que o nosso futebol não tinha o ritmo de uma Alemanha e Argentina, de Gana e Uruguai. E isso me encanta.

Você classificaria como um ritmo europeu de jogar?
Classificaria como uma nova ordem no futebol. Não existe mais o temor pela camisa adversária. França e Itália foram exemplo disso. Foram despachados pela arrogância, pela prepotência e pela falta de renovação.

O Brasil também?
Também. Nossa média de idade foi a maior da história. Só tínhamos um jogador com idade abaixo de 23 anos: Ramires. Foi uma opção de trabalho do Dunga e do Jorginho, só acho que tomaram o caminho errado. Fizeram uma aposta errada.

Qual aposta foi errada?
Esse foi um grupo formado pelos resultados obtidos, é difícil contestar. Mas, agora, o trailer do filme de horror que vimos no jogo contra a Holanda havia passado para nós várias vezes. Todo mundo imaginava que o Felipe Melo poderia se descontrolar. Descontrolou-se. O Dunga não tinha opções. Saímos de uma Copa sem fazer as três substituições (permitidas por partida). Cadê os nossos craques, Ronaldinho, Neymar, Ganso, Pato? Dunga olhava (para o banco de reservas) e só via o Júlio Baptista. Com todo respeito a ele, mas o Júlio não era o cara para virar o jogo. Eles escolheram um caminho errado.

O futebol e o esporte ainda o emocionam?
Muito. O esporte é minha vida. Fui um jogador medíocre de basquete, mas foi com ele que paguei minha faculdade. Fiz todos os esportes e sou professor de educação física. A minha formação é o esporte, ele me ensinou todos os valores da vida.

Narrador tem que colocar paixão, ser até um pouco ufanista?
Absolutamente. É o que sempre digo, sou um vendedor de emoções. O meu produto é o esporte e tenho que vendê-lo com a maior paixão possível. Mas ando sempre no fio de uma navalha. De um lado a paixão, do outro a realidade.

Já escorregou nesse limite?
Em mais de 35 anos andando no fio da navalha, é claro que foram muitas vezes. Nada é tão marcante quantos os erros. E já cometi muitos. Na Copa de 74 narrei um jogo errado. Nos disseram que era Suécia e Iugoslávia. No meio do jogo, a câmera foca o placar: Alemanha Oriental e Austrália. Na primeira vez que narrei uma corrida de Fórmula 1 pela Globo, errei o vencedor, aqui na África do Sul. O Prost ganhou e eu disse que era o Reutemann.

Qual foi a última vez que você chorou?
Choro o tempo todo, eu choro com filme. Mas a última vez foi há dois dias, quando eu e o Casagrande estávamos no bar do hotel, conversando e tendo a exata noção de que ele está de volta com a gente, com força total (Casagrande passou por um tratamento contra a dependência de drogas). E ele dizia que estava feliz e me agradecia por ser parceiro. Nos abraçamos e choramos como crianças.

Você tem a dimensão do seu poder com o microfone da Globo?
Eu sei que é grande. Mas tenho medo de me dar mais importância do que realmente tenho. Sou a voz da Globo no esporte nos últimos 30 anos. Isso é uma coisa que pesa muito, para o bem e para o mal. Mas tenho a exata noção dos limites. Até os ultrapasso algumas vezes, mas não por irresponsabilidade e por vontade de marcar mais do que o necessário. Acho que hoje, às vésperas de fazer 60 anos, tenho equilíbrio suficiente para saber até onde posso ir. Mas não é fácil. Cada vez que o pífano toca, a cobra se levanta. Preciso ficar me policiando sempre.

Você se policiou nesta Copa?
Pouco. Mas me policiei bastante depois da derrota para a Holanda. Tive vontade de bater mais.

Você se surpreende por ter se tornado uma celebridade?
Nunca imaginei que um dia, em um treino da Seleção em São Luís do Maranhão, eu teria que sair escondido em uma ambulância porque as pessoas estavam histéricas do lado de fora. Já tive que sair do aeroporto em carro na pista. Isso me assusta um pouco, sinceramente. Não conseguia entender isso, e hoje consigo. Mexo com emoção, com paixão, e isso não tem limites.

As críticas que você recebe são fruto disso? E elas o incomodam?
Já me descabelei com elas, mas hoje não me descabelo mais.

Nem com os cartazes e os xingamentos da torcida?
O cartaz “Cala a boca Galvão” foi uma vez só, colocado pelo “Pânico” para faturar em cima. O “Vai tomar no c.. Galvão” foi uma vez só, num jogo entre Brasil e Equador, e até o Cacá e o Popó (filhos do narrador) gritaram. “Galvão viado” foram várias (risos). Isso para mim é motivo de orgulho. Mas no começo demorei a entender, assustava. Hoje acho divertidíssimo, é folclore. Você só será personagem de humor se tiver importância. Só me incomodo com as maldades e as mentiras.

E o “Cala boca Galvão” no Twitter?
Foi mais uma brincadeira, esse negócio de Twitter é uma loucura. Quando virei oficialmente papagaio, me veio na cabeça usar isso para fazer algo legal pela fauna brasileira. Entrei na campanha e estamos pensando no que fazer. É só esperar, isso vai virar uma campanha séria. Não podemos perder essa chance de usar uma brincadeira que ganhou o mundo para fazer algo do bem para cutucar as autoridades para que sejam mais duras com a preservação.

Sua última Copa será no Brasil em 2014?
Sim, mas certamente não será o último trabalho. Eu vivo televisão, assisto diuturnamente. Televisão para mim é minha vida. Mas, em 2018, peço a Deus que me dê saúde, quero juntar a pintainhada inteira, a família toda, botar num micro-ônibus e ir assistir à Copa como torcedor. Até posso fazer a Olimpíada de 2016, se a Globo quiser, mas a próxima Copa será a última.

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